"Aprende a desprezar as coisas exteriores, aplica-te às interiores e verás como vem a ti o Reino de Deus."

13 janeiro 2017

As lâmpadas vivas


I.

São sem número, de varia beleza, de luz diversa, mas todas chamadas e postas lá entre a arcadas do templo, na vizinhança do tabernáculo, a fazer companhia a Jesus.

Cada alma cristã é chamada a expandir uma luz de fé e de amor junto da Eucaristia; tenha ela coroa de rosas sobre a fronte ou traga uma de espinhos sobre o coração, saiba cantar ou não saiba se não chorar, Jesus a chama a si: e ela vai aonde a chama essa voz toda misteriosa, mas doce de amor.

Quem é esta alma?

É uma donzela de coração puro como o pensamento de um anjo, de mente serena como a alva do Paraíso.
Ela traz a Jesus o cântico dos seus virginais entusiasmos, o odor delicado dos seus lírios, o cintilar de seus olhos resplandecentes de inocência batismal.
Ignara de certas tempestades, com a alma cheia de sorrisos, ela fala a Jesus com a cândida ingenuidade de uma criança que se lança nos braços de seu pai, diz-lhe que lhe quer bem, manda-lhe beijos e caricias, e n’uma linguagem que não tem nada de convencionalismo humano, narra-lhe a historia intima de mil esperanças, de propósitos arrojados, de temores indefinidos. . . e depois inclina a cabeça, cobre o rosto com as mãos  . . . Talvez chore, mas as suas lágrimas são lágrimas de felicidade.
É uma virgem consagrada ao senhor, educada já na escola das mais ásperas imolações, dos mais dolorosos sacrifícios e d’um amor santo e inebriante, que tem um tique de Golgotha e de Cenáculo ao mesmo tempo.

Depois de ter derramado em volta de si, entre as dores e a miséria dos infelizes, a luz da paciência, do zelo e da caridade, recolhe-se aos pés de Jesus a procurar nova luz para amanha a espalhar por entre os bancos d’uma escola ou pelas enfermarias d’um hospital; e esta lâmpada virginal alterna os seus esplendores entre Jesus que sofre na casa da desventura e Jesus que repousa na prisão do amor.

È uma mãe crista que traz aqui as trepidações d’um coração que adivinha os perigos do futuro, como sente as desilusões do passado, a qual oferece a Jesus um pranto derramada no silêncio de uma resignação sorridente, enquanto o exorta a derramar dobre a cabeça e o futuro dos seus filhos um cálice de bênção e talvez de perdão.

É talvez uma mãe feliz que não sabe onde melhor plantar as flores da alegria do que á sombra de Jesus pôr a sombra os frutos do seu amor.

É talvez uma mãe desventurada que só junto do tabernáculo sabe encontrar um conforto á sua alma angustiada e torturada por uma irreligião blasfema, que lhe reveste de espinhos as paredes domesticas, que lhe asperge de absinto o pão da mesa familiar e lhe suja talvez ate de lama o tálamo nupcial.

É talvez uma alma dolente, mas de uma dor brotada nas profundidades de um coração que volta da morte á vida da virtude.

Como é bela esta lâmpada quando arde diante do Sacramento!

Os Anjos da Eucaristia, ao vê-la, suspendem os seus cantos de glória, para que o canto d’aquela dor vá ecoar no coração com a harmonia sublime do arrependimento, e d’uma nova redenção.

A prece de uma alma arrependida é muito superior á intelectualidade e ao sentimento dos homens, e o fazê-la ouvir entre os filhos da culpa seria o mesmo que profana-la.

O único que lhe compreende toda a beleza e sabe corresponder á sua grandiosidade, é Jesus.

Os reis da terra poderão suspender das arcadas do templo lâmpadas de ouro, mas bastará o gemido e a dor de uma alma arrependida para lhes ofuscar os esplendores.

É uma alma marcada de um caracter indelével: é um sacerdote.

A Hóstia é toda a sua razão de ser, a Hóstia é o brazão da sua glória, a Hóstia é o vigor do seu apostolado, a Hóstia é a arma pacífica das suas batalhas, a Hóstia é o pão da sua vida, é a doçura da sua boca, é o anelo de seu coração; é o ideal, o conforto, o premio da sua fadiga; a Hóstia é o seu sol, o seu Céu, o seu Deus.

Ele é luz que deve brilhar no meio dos homens, mas bem depressa se extinguiria a sua lâmpada, se cada dia não avivasse a sua chama com adoração amorosa da Eucaristia; e ele vai todos os dias junto do seu tabernáculo adorar o seu Deus com a chama do amor sacerdotal.

Ah! Como seriam esquálidos os templos, se não brilhasse junto do altar a lâmpada do sacerdote!
É uma alma cansada de peregrinar sobre a terra e que se sente já perto da morte e da eternidade.
Sobre ela caíra em breve o golpe da morte, e ela enviará o ultimo raio de luz para o tabernáculo e cairá despedaçada sobre os degraus do altar.

(…) Entre ela e Jesus desapareceu toda a nevoa da ilusão, e entre os seus corações é mais livre a corrente d’uma fé que sobe da terra para o Céu, e d’um amor que desce do Céu para a terra; é a vigília dos eternos esponsais. (…)

Dentro em breve é uma lâmpada a menos apagada entre as sombras do mistério, amanhã uma lâmpada a mais entre os fulgores da glória. (…)

O altar de Jesus exige da humanidade lâmpadas, lâmpadas de virtude, lâmpadas de candor, de sacrifício, de pranto e de esperança imortais; e a humanidade responde á chamada e manda as suas almas mais belas a resplandecer por longas horas junto do Sacramento dos mais profundos e sublimes mistérios. (…)

Ó almas cristas não dissipeis a vossa luz no pó revolto do mundo, trazei-a entre os silêncios místicos do templo, fazei-a reverberar os seus raios sobre a portinha humilde do tabernáculo.

É sempre mais bela uma lâmpada ardente junto de Jesus, que um sol brilhante sobre a vaidade e entre as culpas da terra.

(Retirado do livro: Centelhas Eucarísticas, 1916; 3ª Serie – 1ºEdição, capitulo VIII, pagina 76 e …
Traduzido do italiano pelo Ver. Dr. António José Gomes, vice-reitor do seminário de S. José de Macau na China)



Nota: Mantive o texto como apresenta no livro com a escrita antiga.
          Lâmpadas Vivas é o seguimento do post anterior: A lâmpada (Introdução)

12 janeiro 2017

A Lãmpada

Introdução:


É a amiga silenciosa de Jesus, é a amiga silenciosa da alma eucarística.
Quando o templo esta deserto, ela esparge em volta de si uma luz humilde e suave, ilumina a portinha do tabernáculo, e parece pedir que a deixam entrar para dizer ao Divino solitário – eu velo contigo.
 – Quando as almas saciadas de oração e d’amor, abandonam o templo para voltarem ao batalhar quotidiano da vida ela as saúda: - ide, almas amigas de Jesus, voltai aos vossos suores e fadigas; eu fico aqui a velar por vós.

Um templo sem lâmpada parece um corpo sem alma.
O olhar do crente gira em volta, e se não encontrar uma luzinha suspensa, sente no coração uma voz fria como a voz de um desengano, que lhe diz – aqui não está Jesus.
– Talvez ali se encontre tesouros d’arte; mas que podem dizer as obras primas da pintura e da escultura se não são animadas pelos raios da lâmpada?
 O génio do homem, entrando no templo, não pode dar vida á tela e ao mármore se não caí sobre eles o tremeluzir daquela luz.
Ó cara lâmpada!
Tu pareces-me o olhar do amor divino que me penetra a alma a perscrutar-lhe os segredos mais íntimos, que me desce ao coração a desperta-lhe os mais ternos afectos: tu calas sempre, mas sempre estas falando no teu silêncio misterioso: quando uma aridez desoladora me torna surda e muda, tu tens força bastante para me despertar por um instante e lançar um pouco de conforto nas amarguras do meu coração.
 Às vezes tudo parece estar morto para mim, o próprio Jesus parece ter desaparecido do olhar da minha fé, tu porem estas sempre aí para assegurar-me e dizer – não temas, a tua fé não está morta, Jesus está sempre aqui.

Oh! Como é bela e comovente a poesia da lâmpada!
 A luz que chove de uma estrela, a luz que se despenha a torrentes do sol, não é tão tocante, não tem inspirações tão suaves como a de uma lâmpada que esta suspensa no pequeno recinto de uma capelinha d’aldeia.
Quantos olhos derramaram lágrimas ao contemplá-la!
Quantos corações se sentiram enternecidos ao pé dela!
Quando a oração parece morrer nos lábios pelo cansaço, ela sabe dizer uma palavra misteriosa: - ora ainda um pouco, que Jesus ainda te está escutando – e a alma continua a orar.
Ela tem sempre conselhos a sugerir, confortos a dar, recriminações a fazer; ela tem uma potência misteriosa, como a de um anjo posto por Deus para tutelar a honra do tabernáculo, para ter despertas as almas, para consolar os corações áridos e tristes.

É o testemunho litúrgico da presença real de Jesus entre os filhos dos homens, bem como da fé dos crentes no mais profundo e mais vasto mistério do amor divino.

Ela é considerada qual símbolo da alma nas suas relações com Jesus Sacramentado; e quantas vezes a alma eucarística não tem intervejado a sua chamazinha, o tremeluzir da sua luz, o silêncio da sua vida, a constância da sua imolação, a honra do seu mister, a sua vizinhança do seu tabernáculo, a humildade de sua aparência, a beleza de todo o seu ser!

Quantas almas não dariam as mais ardentes lágrimas, e até o sangue para alimentá-la!
Quantas ambicionariam ao menos a honra de estar-lhe perto, de fornece-la, de a terem na mão ao menos por uma hora suspensa entre o céu e a terra, qual símbolo e imagem de um coração que, cansado já das criaturas, deseja subir para Deus passando pela Eucaristia. (…)


(Retirado do livro: Centelhas Eucarísticas, 1916; 3ª Serie – 1ºEdição, capitulo VIII, pagina 76 e …
Traduzido do italiano pelo Ver. Dr. António José Gomes, vice-reitor do seminário de S. José de Macau na China)

Nota: Mantive o texto como apresenta no livro com a escrita antiga.
           Continua no post seguinte : As lâmpadas Vivas